Espiritualidade do Lar - O pai - Th. Dehau, o.p. - A.-M. Carré, o.p. – R.-P. Monjardet - J. M. Perrin, o.p.
Espiritualidade do Lar, o pai.
"Os grandes mistérios da família devem ser considerados à luz
dos mistérios de Belém e de Nazaré. Como é organizada a Sagrada Família? Há o
pai, a mãe e o filho. Só que destes três membros da trindade da terra, o filho,
o pequenino Jesus, é infinitamente superior aos dois outros, porque é Deus.
Quanto aos outros, embora São José seja um grande santo, a Santíssima Virgem o
ultrapassa quase infinitamente. Eis, portanto uma coisa estranha: é o pequeno,
o menor de todos, que é Deus. Dizer que ele é pequeno, pequenino, é uma glória
para ele. A sagrada liturgia faz bem em dizer de sua mãe: Cum essem parvula
placui Altissimo - porque era pequenina agradei ao Altíssimo. Ah, divina mãe! Podemos dizer: porque sois tão pequena agradais ao Altíssimo, mas permiti-nos
acrescentar: é por isso mesmo que nos agradais também a nós. Essa pequenez, é a
medida por assim dizer invertida de nosso grande amor. Quanto mais pequena
sois, tanto mais vos amamos.
Perguntemo-nos agora: desses três, quem é que tem a autoridade
sobre os dois outros? É um grande santo, um santo no sentido mais pleno e mais
forte desta palavra, mas somos obrigados a dizer, aliás em seu louvor, enquanto
pai, em louvor de sua gloriosa paternidade sobre toda a Sagrada Família, que ele
é menos santo que os outros dois. A glória do pai como tal, é a santidade do
seu filho. A glória também do esposo como tal, é a santidade de sua esposa.
Portanto, superioridade infinita do filho no que tange à santidade, porque é
Deus, e superioridade quase infinita de Maria. E apesar disso é uma família,
mais família que qualquer outra, como dissemos. Será preciso, por uma consequência
necessária, que o seu chefe seja mais chefe, portanto, mais pai que qualquer
outro. José é pai de toda a Sagrada Família, mais pai que qualquer outro o é da
sua, ao menos em certos pontos de vista e sob certos aspectos, pois há na
Sagrada Família mistérios inefáveis que se prendem imediatamente à paternidade de
Deus, único autor com Maria da adorável humanidade de Jesus. Dizemos pai de
tais ou tais filhos, mas dizemos também pai de família, distinguindo bem por
nossa maneira de exprimir esses dois termos distintos e complementares: o
filho, a família. Retenhamos isso, pois nos será útil mais de uma vez. José é,
portanto, pai de Maria como de Jesus, enquanto estes são membros dessa família,
o que não impede que ele, José, sob outro ponto de vista que diremos mais
adiante, seja também filho de Maria. Em face de Maria, ele é ao mesmo tempo o
pai, o esposo e o filho. Nunca mergulharemos bastante os nossos corações nesses
incomparáveis mistérios.
Em toda a família, a autoridade é o pai. Na Sagrada Família,
a autoridade será respeitada mais perfeita e mais plenamente ainda que em
nenhuma outra. A ordem divina que quer que o pai seja respeitado é
infinitamente respeitada na Sagrada Família. Qual é, com efeito, a única palavra
que nos diz o Evangelho sobre a vida de Nazaré? Diz-nos desse Deus que era ao
mesmo tempo uma criança, e, como criança, inferior aos dois outros, diz-nos que
esse Menino-Deus lhes era submisso: et erat subditus illis. Palavra surpreendente,
e que nos parece tão simples: Ele era-lhe submisso. Que mistério insondável
essa submissão de um Deus, de uma Pessoa divina nascida do Pai que está nos céus,
perfeitamente igual a ele e que repousa eternamente no seu seio! Era-lhes
submisso, sabemos até que ponto: de todas as maneiras. Era-lhes submisso mesmo
como operário. Nosso Senhor foi o pequeno aprendiz de São José, e pode-se dizer
que foi o pequeno aluno de Maria, no sentido em que foi Maria, como todas as
mães, que lhe ensinou a balbuciar uma linguagem humana. Nosso Senhor possuía,
desde o primeiro instante de sua existência terrestre, todas as luzes e todos
os esplendores. E, no entanto, quis que muitas possibilidades humanas se desenvolvessem
nele do mesmo modo que em nós, e entre outras, esta faculdade de falar que
progride sob a ação da mãe, sob o cuidado maternal, assim como se aprende um
ofício sob a ação do patrão. O patrão para Jesus era ao mesmo tempo pai, como
se vê ainda nos meios patriarcais. E isso, aliás, é inteiramente normal, porque
a palavra patrão vem de pai. Essa submissão, todas as submissões da Sagrada
Família eram infinitamente suaves. Nunca houve seres que se sentissem tão
felizes em obedecer uns aos outros. Reinava entre eles um incomparável
respeito. Dizer a que ponto Jesus respeitava e honrava São José, esse reflexo
da paternidade divina, e dizer também aquilo que o Evangelho não diz, mas que todas
as almas verdadeiramente devotas da Santíssima Virgem compreendem admiravelmente:
o que era a obediência de Maria a José, da esposa ao esposo, é impossível! Conforme
a grande palavra de São Paulo, o homem é o chefe. O chefe, todos sabem o que
isso quer dizer: a cabeça. Não é somente o Menino Jesus que respeita infinitamente
essa hierarquia, que se inclina diante da autoridade de São José, é o próprio
Deus quando envia mensagens à Sagrada Família. Sabemos que Deus tratou a
Sagrada Família, como todos os superiores e o próprio Deus tratavam as pessoas
perfeitamente obedientes, eu ia dizer, só ousam tratar as pessoas perfeitamente
obedientes. Envia-lhes ordens, mas ordens formais. Nunca homem algum recebeu
ordens mais formais, mais concisas, mais rígidas, que as que recebeu São José.
É a ele que são dadas, notai bem, não é a Jesus nem à Santíssima Virgem. É a
José que Deus envia o seu anjo para lhe dizer: "Toma o Menino e a sua Mãe
e foge para o Egito". Ordem muito dura, nada é mais duro que fugir, nada
mais duro que uma fuga... para o exílio. Essa ordem é comunicada por via
hierárquica: vem de Deus, passa pelo anjo, natureza intermediária entre a natureza
divina e a humana, depois é dada ao pai, e pelo pai às outras da família de que
é chefe, e todos obedecem. São José, é o homem da ordem, o homem que obedece,
que age e não aquele que fala. Há santos que dizem bem poucas coisas. Há mesmo
alguns que não falaram e contentaram-se de morrer, como os Santos Inocentes,
Non loquendo sed moriendo confessi sunt. O martírio é o testemunho pelo sangue,
e o sangue basta. O sangue é como Deus: Deus só basta, dizia gloriosamente
Santa Teresa solo Dios basta. O sangue é como a graça de Cristo; ele dizia ao
seu apóstolo: Basta-te a minha graça. O sangue é como a fé: o teólogo poeta da
Eucaristia continuará até o fim dos tempos a cantar ao pé do ostensório: basta
só a fé, sola fides sufficit. Há santos que falam. Houve santos pregadores, mas
a sua palavra era filha do silêncio, como diz Santo Antônio. O maior dos
pregadores, observa esse dominicano, foi São João Batista, e nasceu de um pai
mudo. Há santos que falam e santos que se calam. Entre os que se calam, está
São José em primeiro lugar. É um mudo, no sentido em que o Evangelho não nos
cita uma só palavra dele. Só põe em relevo a sua obediência às ordens divinas.
É um mudo, e é por esse silêncio, silentium Pater, que ele mereceu servir de
pai ao Verbo, ao pregador divino infinitamente maior que João Batista, poderia
dizer Santo Agostinho. O Evangelho só cita a maneira como São José obedece e
como faz obedecer os que lhe são confiados, aos quais deve comandar em nome de Deus.
É preciso partir imediatamente, é preciso partir durante a noite, para o
desconhecido. "Toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egito". Ele os
toma, eles se deixam levar e se salvam. Suscipe me et vivam. É o contrário do “moriendo”
dos Santos Inocentes, é a vida em lugar da morte, mas é sempre a obediência. Todos
obedecem. Convencei-vos bem disto: quando a autoridade fala, é Deus quem fala.
"Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza". Essas
palavras ditas aos apóstolos aplicam-se à autoridade da Igreja; mas ultrapassam
por sua infinidade todas as aplicações que hão de falar e falaram em nome de
Deus. Por conseguinte, é Deus quem fala: "Quem vos ouve, a mim ouve; quem
vos despreza, a mim despreza". Lembrai-vos daquela palavra de São Paulo:
"Somos embaixadores de Deus". Esse termo "embaixador" tem
talvez um sentido por demais estreito e parcial para designar uma coisa tão
grande. Somos representantes de Deus I Ah, aí está uma palavra que compreendemos
melhor. Sabe-se o que quer dizer essa palavra. Muitas alusões históricas
poderiam ser encaixadas aqui. A autoridade fala em nome de Deus. Aquele que é
investido de uma autoridade é o representante de Deus nos limites dessa autoridade,
segundo a medida e as condições em que ela se exercer. Ora, a autoridade do pai
exerce-se sobre o filho na medida em que o filho é filho: quanto menor é o
filho, tanto maior é essa autoridade. Ela vai se atenuando à medida que o filho
cessa de ser uma criança para se tornar um homem feito. O filho não permanece
sempre um filho, ao passo que a família permanece sempre uma família. Portanto,
há uma estabilidade ainda maior, mais definitiva do chefe de família em relação
à família, do que do pai em relação ao filho. Apenas focalizo de passagem esse
princípio que pode e deve ter grandes consequências."
Th. Dehau,
o.p. - A.-M. Carré, o.p. – R.-P. Monjardet - J. M. Perrin, o.p.

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