O homem segundo o coração de Deus
Há um outro título que damos a São José: chamamo-lo “o homem segundo o
coração de Deus”, “o homem da dextra de Deus”, isto é, o homem da
Providência divina. E estes títulos convidam a estudar com mais minúcia as
relações de São José com o Espírito Santo. Com efeito, o Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho mediante a
vontade ou o amor, representa, na Divindade, o amor ou o coração, símbolo do
amor. E como não há nada mais ativo que o amor, o Espírito Santo representa
também o princípio de todo movimento ordenado ao fim. Numa palavra, ele é o
princípio diretor a que todas as criaturas devem obedecer para atingirem o seu
destino eterno. O Espírito Santo, “O dedo de Deus”, que criou todas as coisas
pela sua sabedoria, conduz todas as criaturas ao seu fim pela sua Providência,
designando-lhes a sua vocação e tornando-as capazes de cumprir essa vocação.
Na sua qualidade de pai legal de Jesus e de chefe da Sagrada Família, São
José teve uma vocação de grandeza e importância excepcionais: preparar o
advento do Redentor neste mundo, preparar a redenção velando sobre a infância
e juventude do Homem-Deus. Sob este aspecto, Ele era o instrumento do
Espírito Santo. O Espírito Santo guiava, José obedecia e realizava o plano divino
pela obediência. É instrutivo e edificante ver de que maneira José seguia a
direção do Espírito Santo. Sob este ponto de vista achamos, na vida do santo
patriarca, duas espécies de circunstâncias em que a sua conduta nos pode servir
de modelo.
Primeira circunstância: — Deus quer alguma coisa de nós, chama-nos para
fazermos uma escolha; mas não nos manifesta expressamente a sua vontade,
guarda silêncio. São José achou-se neste caso provavelmente no momento do
seu noivado com Maria, e depois quando teve de sofrer sob a dúvida cruel de
que falamos, e enfim na época do regresso do Egito, quando se tratou de fixar
em Belém ou em Nazaré a residência da Sagrada Família. Em semelhante
conjuntura não há outro recurso senão tomar o conselho de outrem, ou inspirar-se na sua própria prudência, na própria consciência, ou enfim orientar-se pelos
conhecimentos que podem levar a conhecer a vontade de Deus.
Assim, para o noivado com Maria, São José ter-se-ia resolvido em razão da
declaração dos sacerdotes e dos chefes de família. Na dúvida relativa à
virgindade de Maria, ele consultou sua consciência e a lealdade do seu próprio
coração, sem se deixar influenciar pela voz da paixão, até que Deus revelasse a
Sua vontade pela mensagem do anjo. Finalmente, para fixar em Nazaré a
residência da Sagrada Família, ele se decidiu pelos conselhos da prudência,
porque Arquelau era para temer tanto quanto seu pai Herodes; e, aí ainda, a
escolha de José recebeu a confirmação divina.
Segunda circunstância: — Deus nos pede uma coisa, manifesta claramente a
Sua vontade, mas nos deixa a escolha e a aplicação dos meios. Aqui, o que
temos a fazer é desprender-nos de todo apego, triunfar de todo temor, de toda
irresolução, para nos conformarmos sem reserva com a vontade de Deus. É o
caso de São José, recebendo do céu a ordem de fugir para o Egito com o
Menino. O fim estava claramente designado. Quanto aos meios, José teve de
prover-lhes por si mesmo; e vimos a sua coragem e constância em obedecer.
Que desapego de si mesmo, que docilidade em se conformar com uma ordem
que o atira para longe, para a terra do exílio! Não é Ele, por essa própria obediência, a nuvem leve sobre a qual o Senhor queria mostrar-se no Egito (Is
19,1)?
Destarte mostra-nos ele em São José o nosso padroeiro em todas as decisões
difíceis, e mais particularmente na escolha da vocação, escolha de tamanha
importância para todas as almas. Quando, às vezes, é coisa tão delicada uma
simples determinação a tomar no curso ordinário da vida, que dizer de uma
escolha de que dependerá a vida inteira? Portanto, sigamos o exemplo de São
José e imploremos-lhe o socorro. As reflexões seguintes poderão ajudar-nos em
negócio tão grave.
Primeiramente. devemo-nos compenetrar bem deste grande princípio: que,
numa decisão qualquer e, sobretudo,na escolha de uma vocação, não devemos
procurar outra coisa senão a vontade de Deus para a salvação eterna de nossa
alma, e não a nossa própria vontade ou as nossas preferências, a menos que elas
coincidam com a vontade de Deus. Procurar e querer outra coisa, seria subverter
a ordem; seria tentar dobrar a vontade de Deus à nossa própria vontade, e não
reduzir a nossa vontade à de Deus. Seria fazer do fim o meio, e do meio o fim.
Não seria querer ir a Deus, mas querer que viesse a nós. Tudo consiste, pois, em
procurar conhecer a vontade de Deus sobre nós. Ele é nosso Senhor e Mestre. A
nossa vida lhe pertence. A Ele é que compete dispor dela, é não a nós. A Ele é
que cabe determinar como devemos servi-lo. Não é o homem que faz a sua
vocação, é Deus quem lha dá.
Em segundo lugar, segue-se que devemos examinar o que pode ou não pode
ser objeto de uma escolha. Evidentemente, nada de pecaminoso, nada de
contrário à lei divina poderia ser posto em deliberação. Não teríamos aí nem a
vontade de Deus nem um meio de chegar ao nosso fim. A escolha não pode
versar senão sobre coisa moralmente boa, ou pelo menos sobre coisa indiferente
em si mesma, mas podendo, na circunstância, tornar-se boa; sobre coisa, enfim,
admitida na Igreja ou por ela tolerada. Não é, pois, necessário que o objeto da
escolha seja uma coisa que se refira por si mesma à perfeição, por exemplo o
sacerdócio ou o estado religioso. Deus tem caminhos para cada alma em
particular e, todos os caminhos, contanto que não sejam maus, podem conduzir
ao fim. Foi por isso que Ele estabeleceu na Igreja vocações diversas, e em cada
uma dessas vocações pode-se, com o socorro de Deus, atingir a perfeição,
porque a perfeição consiste essencialmente em amar a Deus acima de todas as
coisas, em ser e em fazer o que Deus pede de nós. São José nos ensina pelo seu
exemplo: Deus lhe pedia um modelo de perfeição mesmo no estado do
matrimônio.
Estabelecidos estes princípios, trata-se, em terceiro lugar, de saber como
podemos achar e reconhecer a vontade de Deus sobre nós, relativamente à nossa
vocação ou à maneira por que devemos servi-lo e alcançar a nossa salvação.
Sobre este ponto, há vários meios de chegar a uma certeza moral. O próprio
Deus pode revelar-nos a sua vontade, como o fez muitas vezes com os santos, e
em diversas circunstâncias com São José, enviando-lhe um anjo. A luz também nos pode ser dada pelas inspirações interiores e pelos movimentos da graça na
oração, pelas inclinações naturais ou pelas qualidades que Deus nos deu e que
correspondem a esta ou aquela vocação.
Enfim, podemos examinar seriamente e pesar com reflexão as vantagens e os
inconvenientes que acharemos para a salvação de nossa alma nos diferentes
caminhos que se abrem diante de nós. O que então nos parecer o melhor, quando
todas as coisas forem assim discutidas sem nos deixarmos influenciar pelo nosso
gosto natural, muito verossimilmente é a vontade de Deus e a vocação a que Ele
nos chama. Podemos pois, tomar a nossa decisão definitiva. A escolha está,
assim, terminada, e Deus não deixará de nos abençoar. Fervorosas orações, os
conselhos de pessoas prudentes e tementes a Deus, uma séria introspecção em
nós mesmos perguntando-nos o que aconselharíamos a um amigo em
semelhante circunstância e o que nós mesmos queríamos ter feito, quando viesse
o momento da morte — são outras tantas indicações utilíssimas para uma boa
escolha.
Por conseguinte, quando tivermos de fazer uma escolha importante, vamos a
São José:é um santo, é um pai, é o nosso conselheiro, é o nosso amigo. Dele,
melhor ainda do que do ministro do Faraó, podemos dizer: — “Acharemos um
homem que, como esse, seja cheio do espírito de Deus? Acharemos um sábio
que lhe seja comparável?” (Gn 41,38). Não menos que o José que salvou o
Egito e seu povo, São José é favorecido pelas luzes sobrenaturais e pelas
comunicações divinas.Ele absolutamente não precisa de uma taça ou de um
espelho (Gn 44,5) para reconhecer a vontade do céu e descortinar o futuro. Ele
reina agora junto Daquele que foi seu filho na terra; lê no espelho da divina
Sabedoria o que Deus quer e o que é bom para as almas. Lembremos-lhe as
angústias que acompanharam a escolha da sua vocação. Lembremos-lhe aqueles
três dias de cruel ansiedade, quando Jesus, na idade de doze anos, ficou em
Jerusalém. Foi por causa de uma vocação que seu coração sofreu tanto. Tratavase de revelar e de reparar a vocação do Homem-Deus, Daquele que era seu filho.
E temos também aí um exemplo das tristezas de que muitíssimas vezes a
vocação dos filhos é ocasião para os pais. São José conhece as alternativas de
sofrimentos e de alegrias que acompanham uma vocação. Alguém disse: aqueles
a quem a vontade de Deus chama ao estado do matrimônio, melhor não
poderiam fazer do que recomendar-se a São José na escolha de um esposo ou de
uma esposa. Ele encontrou Maria! Que graça e que fonte de bênçãos! “A mulher
virtuosa é uma sorte feliz!” (Ecl 26,3); “A mulher santa e pudica é uma graça
inestimável” (Ecl 26,19).
Pe. Maurício Meschler, S. J.

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