O ócio que envenena a alma e destrói aos poucos a virilidade do homem
“E só no fim da idade, quando temos pago a nossa dívida ao trabalho, que nos pertence o repouso, e é então que Deus o abençoa. O descanso do velho é um direito e uma majestade, quando, assentado no seu lar, rodeado de uma família, a cujo futuro soube prover, pode evocando seus anos, fazer cintilar em sua memória a recordação do bem que fez. Mas repousar, quando nada tem produzido, repousar desde a mocidade, entregar à febre de um prazer precoce e continuo a alma e o corpo é expor-se o homem a horríveis corrupções. Tenho visto, ao percorrer, as nossas grandes cidades, essa mocidade dourada que se jacta de ser o seu ornamento. Herdeira de um bom nome e de uma grande fortuna, podia servir utilmente a pátria pela espada ou pela ciência e promover o reino de Deus nas almas, pelo gênio, pelo exemplo e pela dedicação. Mas não: ela gosta mais de gozar. Jovens sibaritas efeminados, seres delicados e perfumados, conhecem o nome de todas as atrizes e fazem a fortuna de todos os cabeleireiros. A estes escravos da fantasia são necessárias ideias todas novas, extravagancias variadas, prazeres muito frescos, espetáculos muito picantes, e iguarias impossíveis. Aquecer-se à boa mesa, comprar, vender e trocar cavalos, provar e vestir fatos, experimentar hábitos, acariciar cães, enganar mulheres ou deixar-se enganar por elas, pavonear-se nos salões, mirar as mulheres no teatro, fazer da noite dia, eis a sua vida. Ao aspecto destes velhos, cuja mocidade é toda feita de pó de arroz, tenho visto muitos tolos encherem-se de admiração e de inveja, mas sempre eu os tenho saudado como flagelos, dirigindo-lhes na minha alma indignada aquele sarcasmo do Espirito Santo: De stercore boum lapidatus est piger, et omnis qui tetigerit eum excutiet manus.”
Pe. Vitor Marchal

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